sábado, 20 de abril de 2019

Sesi, EAD e a Metodologia de Reconhecimento de Saberes: uma proposta de inovação para a Educação de Jovens e Adultos (EJA)

O interesse em escrever sobre o EJA a distância do Sesi, Polo Salvador, surge devido uma experiência vivida por um membro da minha família. Eu tenho um irmão mais velho, que começou a trabalhar em uma empresa desde muito cedo, com apenas 20 anos idade, ele iniciou sua trajetória na empresa com office-boy e ao longo dos vinte anos que permaneceu nessa empresa, foi sendo promovido para outros cargos até torna-se gerente e responder por todas ações da empresa na ausência do dono. Ele sempre foi muito elogiado pelo patrão por sua inteligência, por aprender rapidamente questões relacionadas ao funcionamento de uma empresa, questões relacionadas a informática, mesmo sem nunca ter feito qualquer tipo de curso de aperfeiçoamento.
No entanto, quando trata-se de sua trajetória escolar, o cenário é completamente distinto. Não demonstrava nenhum interesse pelos estudos, perdeu dois anos na oitava série (atual nono ano) e quando conseguiu ingressar no ensino médio, todos acreditavam que ele ia para escola após o trabalho, até que minha mãe descobriu que não frequentava as aulas, após isso, ele deixou de estudar em definitivo. Na verdade, o que ficava evidente é que o trabalho para ele era mais interessante a nível de aprendizado em relação à escola, ele se sentia cansado e desmotivado para frequentar as aulas. Assim, ele ficou mais de vinte anos sem ir à escola, apesar de todos da família tentar incentivá-lo a retomar os estudos.
Até que o ano passado, uma irmã viu uma reportagem na televisão que o Sesi estava abrindo inscrições para turmas do EJA e era aberto para a comunidade. Após muita insistência, ele resolveu se inscrever.
Quando as aulas foram acontecendo, percebi mudanças notórias. Ele me ligou e conversou comigo sobre o andamento das aulas e nunca tinha visto tanta empolgação da parte dele sobre estudos até então. Contou que fez uma redação sobre sua história de vida, bem como sobre seus conhecimentos que adquiriu ao longo vida. Sem contar no suporte pedagógico que recebeu durante o curso. Alguns meses depois, ele enviou uma mensagem bastante emocionada no Whatsaap informando que havia passado em primeiro lugar nas provas e que estava muito feliz, pois jamais imaginava que fosse ter tão bom desempenho e que essa experiência no EJA o ajudou ter autoconfiança, e o quanto antes daria continuidade aos seus estudos. Atualmente, ele está cursando Administração em uma faculdade a distância aqui em Salvador. Eu por ser irmã e conhecer sua trajetória fiquei impressionada com transformação dele, como o EJA Sesi ampliou seus horizontes e contribuiu para que visse a educação a partir de uma outra perspectiva.
Segundo Freitas (2017) o EJA Sesi a distância foi implantado em 2013, após um período de testes e preparação dos professores para o novo sistema, já que o AVA Sesi educa foi substituído pelo Learning Management Systems (LMS). Inicialmente, foram criados dois Polos de ensino, um em Salvador (Sesi Retiro) e outro em Vitória da Conquista, mas atualmente foram implantadas Polos em outras cidades da Bahia, ofertando vagas para o ensino fundamental II e ensino médio.
A metodologia adotada pelo Sesi permite a realização dos cursos no local de trabalho, em casa, através de tablet, smatphone e computador, favorecendo que o aluno torne-se agente ativo da sua aprendizagem e adquira autonomia para construir seu percurso formativo, com o suporte da tecnologia. O material didático é composto por 30 mil páginas eletrônicas, 30 mil objetos de aprendizagem entre textos, vídeos e animação, 20 mil questões de autoavaliação e 4 mil itens de prova. Sem contar que possuem 10 mil questões elaboradas pelo própria instituição. A figura a seguir ilustra o desenvolvimento do material didático:


As aulas do EJA a distância são totalmente via web, com dois encontros presenciais por semana para oficinas temáticas e avaliações. A instituição dispõe cartão de meia passagem para os estudantes e quando o aluno falta, eles entram em contato com o aluno para saber por qual motivo não compareceu a aula.
Os alunos são acompanhados por professores tutores de acordo com a área de conhecimento, que são divididas em 4 grandes áreas:

Existem ferramentas de acompanhamento, gestão e comunicação entre alunos e tutores, alunos e alunos. A comunicação, neste contexto ocorre de forma continuada e pode ocorrer de forma síncrona ou assíncrona.
O detalhe que mais me chamou atenção no EJA a distância do Sesi diz respeito a Metodologia de Reconhecimento de Saberes utilizada pela instituição, oriunda de Portugal. O uso da referida Metodologia parte do ponto de partida sobre o que o aluno sabe, buscando identificar, validar e certificar os saberes prévios dos alunos desenvolvido por meios formais, não formais e informais:


Desse modo, achei interessante o fato dessa metodologia levar em consideração a bagagem cultural que não foi aprendida na escola, mas em outras instâncias sociais, que por sua vez, são constituídas a partir de conteúdos informais ou não formais, como a família, grupo de amigos, igrejas etc. Assim de acordo com Freitas (2017) através da mediação pedagógica é possível compreender o que o sujeito conhece, suas expectativas e anseios, estabelecendo uma ponte de relações entre o que conhecem e o que desejam e precisam conhecer, trazendo problematizações para que possam dar sentido e atribuir um novo significado para o conhecimento adquirido.
Embora o texto de Alves et. al (2014) não aborde acerca do EAD no ensino médio, mas sim, do ensino superior, é bem evidente as semelhanças trazidas nos textos. O fato do EAD favorecer o avanço na educação para a sociedade, principalmente por que os alunos através dos estudos, adquirem valorização nos aspectos pessoais e profissionais. A outra questão refere-se ao fato de tanto adultos como jovens, não terem tido a oportunidade de cursarem uma graduação presencial que estão aquém de suas condições socioeconômicas, bem como a distância para quem mora longe dos grandes centros educacionais, bem como o fator tempo, pois a maioria exerce alguma atividade laboral. Além disso, os alunos podem gerenciar suas atividades através das variadas tecnologias digitais, de acordo com a sua disponibilidade de horário.
Apesar de ter não conhecimento aprofundado sobre as instituições descritas no artigo, e ter conhecido um pouco mais do EJA Sesi, nota-se que oportunidades são oferecidas para uma maior elevação na escolaridade, assim como busca-se que a aprendizagem seja significativa para o aluno por levar em consideração sua historicidade e que possibilite a expansão de seus objetivos (assim como aconteceu com meu irmão), ainda que o Sesi seja uma paraestatal e seu viés privado como das instituições de ensino superior particulares tenha uma tendência destacar a inserção e competitividade no mercado de trabalho.

Referências:

ALVES, A. M. A et.al. Educação a Distância: aspectos positivos e análise a favor da modalidade. Cadernos de Educação, Pelotas, v.13, n.27, p. 188-199, jul. - dez., 2014.

FREITAS, G. M. O. Avaliação do ensino médio a distância na educação de jovens e adultos do Sesi Bahia. 2017. 257f. Dissertação de Mestrado - Universidade do Estado da Bahia, Salvador, 2017.

domingo, 14 de abril de 2019

Fanfics criam episódios finais para o desenho Caverna do dragão


O meme acima representa exatamente a minha curiosidade quando lembro o que teria acontecido com os personagens. Rsrs!
 Caverna do dragão ou Dungeons and Dragons, foi um desenho animado criado, em 1983, nos Estados Unidos, baseado em um RPG criado em 1974, que possui o mesmo nome. A série foi criada pela Marvel Productions e TSR Inc., foram ao ar 27 episódios entre os anos de 83 e 85, tornado-se sucesso de audiências nos dois primeiros anos de exibição pelo canal CBS. No terceiro ano, perdeu espaço para os Smurfs. Caverna do dragão chegou no Brasil em 1986, o desenho era exibido no Programa da Xuxa (1986-1992), na rede Globo e passou ser um desenho muito popular em todo Brasil.A história é de um grupo de 6 jovens (entre 10  e 18 anos), que estão em um parque de diversões. No entanto, quando embarcam em uma montanha russa um portal se abre e os personagens são transportados para outro mundo (chamado de Reino), no qual já aparece trajando outras roupas, e logo após, recebem armas mágicas. Além de Hank, Eric, Diana, Sheila, Presto e Bobby, o desenho é composto por outros personagens como Mestre dos Magos (conselheiro e guia), Uni (unicónio fêmea que torna-se amiga de Bobby) e os antangonistas Vingador (feiticeiro), Tiamat (dragão de 5 cabeças) e Demônio das Sombras (informante do vingador). Assim, o Mestre dos Magos começa a ajudá-los a encontrar o caminho de volta para casa. A cada episódio, eles conseguem achar o portal para o seu mundo, todavia sempre acontecia algum entrave, que os impediam de voltar. Crianças e adolescentes do final da década de 80 e início dos anos 90, assistiam aos episódios e a grande expectativa era que eles pudessem atravessar o portal, cada episódio era um sofrimento!




No entanto, antes mesmo de chegar ao Brasil, a série foi cancelada antes do último episódio, sem maiores explicações, o que causou e causa indignação dos fãs até os dias de hoje. Na verdade, o episódio 28 teve seu roteiro oficial finalizado por Michel Reaves, porém, não foi produzido em formato de animação. O episódio final chamado de Requiem, foi adaptado para história em quadrinhos em 2010 pelo cartunista Reinaldo Rocha, ou seja, um trabalho fanfic.

https://zupi.pixelshow.co/requiem-o-final-de-caverna-do-dragao/

 Além da HQ produzida por Reinaldo Rocha, ao longo dos anos foram criados livros e jogos inspirados na Caverna do dragão.
Fanfics no mais variados sites têm elaborado outros desfechos para o último episódio por não concordarem com o roteiro final, por entender que ficou em aberto, pois não deixou claro se os protagonistas conseguiram voltar para casa. Participantes dos sites comentam, colaboram criticam e elogiam a produção dos fanfics. Além disso, eles sugerem a criação de uma trilogia para caverna do dragão, incluindo uma adaptação cinematográfica. Há mais ou menos dois atrás surgiu a notícia que seria lançado um filme da caverna do dragão, inclusive com pôster e data de estréia do filme, porém, a notícia foi desmentida (fake news). Acredita-se que a criação do pôster foi confeccionada por algum fanfic, ela foi tão bem produzida que muitos acabaram acreditando, inclusive eu! Rsrs!



Após os devidos esclarecimentos, fãs passaram a insistir ainda mais na possibilidade do desenho virar um filme. Período que tentaram levantar a hastag #QueroCavernaDoDragaoOfilme na tentativa de terem suas desejos atendidos por alguma franquia de cinema, mas sem êxito. Possivelmente não irá acontecer, pois como o desenho não fez sucesso por muito tempo nos EUA, onde está o pólo de produção de filmes, dificilmente irão investir apenas porque fez e ainda faz sucesso no Brasil, a não ser que Netflix do Brasil abrace a causa. A verdade é que  a publicidade e os mercados midiáticos estão inseridos em uma cultura, de maneira que observa de uma certa distância sobre o que está acontecendo na sociedade, para a partir daí, elaborar suas ideias. Dessa forma, buscam seguir tendências de padrões culturais e ditames do mercado mundial, portanto, fará alguma produção que lhe parecer conveniente.

O filme sendo produzido ou não, o que fica evidente é o poder midiático que o consumidor se apropria nas suas relações cotidianas tanto nos aspectos individuais e principalmente coletivo, pois ocorre a troca de saberes, a produção coletiva de significados. Estamos aprendendo a consumir cada vez mais tecnologias diferentes, no intuito de ter um controle maior sobre os fluxos midiáticos para interagir com outros consumidores.
Se não tem filme, tem narrativas fictícias, tem HQs, jogos e memes.

Nem o mundo acadêmico escapa...Rsrsrs!



Links:

http://www.adorocinema.com/noticias/series/noticia-117810/

https://www.spiritfanfiction.com/categorias/caverna-do-dragao

domingo, 7 de abril de 2019

Aconteceu comigo: quadrinista cria histórias em quadrinhos baseadas em relatos de mulheres que sofreram algum tipo de violência.

As Histórias em Quadrinhos (HQs) passou a fazer parte da minha vida nos primeiros anos da minha infância. Aos seis anos de idade, quando estava na alfabetização, minha mãe começou a comprar gibis da turma da Mônica por recomendação da minha professora. Eu tenho as melhores lembranças desse período, pois o processo de aquisição da leitura e da escrita foi muito prazeroso, porque a cada sílaba, a cada palavra, a cada frase dita pelos personagens que conseguia compreender, envolvia-me facilmente na história.
À medida que fui crescendo, as HQs da Mônica e sua turma já não empolgava como antes e assim, fui perdendo o contato com os quadrinhos. No entanto, pude perceber as transformações ocorridas com as HQs como por exemplo, quadrinhos com audiodescrição, quadrinhos personalizados. Hoje é possível encontrar várias ferramentas gráficas que permite você cria sua própria HQ.
Apesar de não ser mais uma leitora assídua de HQs da turma da Mônica, ainda me interesso por outros tipos de quadrinhos, porém, que contenham temáticas relevantes para a sociedade, bem como, que tenha a finalidade entreter e divertir. Não somente HQs, mas também, charges, tirinhas, memes, caricaturas, etc. Inclusive sigo algumas tanto no Facebook como no Instagram.
É sobre uma delas que escreverei hoje denominada de " Aconteceu Comigo."
 Aconteceu comigo, criado em 2015, trata-se de uma série de narrativas vivenciadas por mulheres que passaram por alguma situação discriminatória ou violência como racismo, gordofobia, lesbofobia, assédio sexual e machismo que são transformadas em HQs. A idealizadora desse projeto, Laura Athayde, recebe os relatos das mulheres através do Facebook, na sua página e no seu Instagram através de um formulário online anônimo, caso elas queiram que suas histórias sejam mantidas em sigilo, embora algumas pedem para ser identificadas.

 http://ltdathayde.tumblr.com/post/138622812271/mais-uma-hist%C3%B3ria-real-da-s%C3%A9rie-aconteceu-comigo


https://www.instagram.com/ltdathayde/


https://www.facebook.com/ltdathayde/?epa=SEARCH_BOX






A história acima retrata um caso de abuso sexual sofrido por uma criança, onde o abusador não foi responsabilizado pelo crime cometido, e certamente a vítima foi chamada de "mentirosa" não só por ele, como por outras pessoas, situações como deste tipo infelizmente são recorrentes no Brasil. O propósito segundo a autora dos quadrinhos é favorecer o encorajamento de mulheres que passaram ou passam pela mesma situação narrada nos quadrinhos, bem como promover a empatia. Além disso, são percebidas reações diversas das seguidoras perante os quadrinhos como palavras de apoio, de indignação, algumas se identificam com as histórias e acabam relatando suas experiências nos comentários.
Diferente dos Gibis da turma da Mônica que as histórias narradas eram um pouco maiores, os HQs criados nas redes ainda tendem a seguir uma narrativa imagética, no sentido que textos e imagens se completam, porém, com textos mais curtos e de leitura rápida, o que sugere uma maior possibilidade de compartilhamento, transmitindo conteúdos com mensagens importantes com uma estrutura aparentemente simples.
Dessa forma, considero um trabalho interessante pelo fato da criadora do projeto nunca ter vivenciado nenhuma das histórias relatadas nos quadrinhos, todavia, através do seu trabalho, coloca-se como uma ponte de comunicação para que mulheres tenham a possibilidade de contarem suas histórias, ainda que todas tristes e nem todas com final feliz, todavia, algumas com mensagens de otimismo e resiliência, colaborando para que exista uma maior sororidade entre as mulheres, o que favorece sentirem-se menos sozinhas e com maior apoio. Segundo Follain (2017), as pequenas narrativas se propagam como forma de autoproteção e resistência perante experiências cotidianas onde grupos colocados à margem ao longo da história buscam afirmar sua memória e identidade, como é o caso das mulheres presentes nas HQs, onde a maioria são mulheres negras, lésbicas, gordas, transgênero ou com algo tipo de deficiência (cadeirante e autista, por exemplo), são historicamente invisibilizadas na nossa sociedade, e portanto, passíveis a toda forma de discriminação e violência. Assim, como destaca Follain (2017) as narrativas tornam-se um "recurso utilizado pelo indivíduo, em sua solidão existencial, para se conectar com outro e para reatar os fios partidos das narrativas identitárias, assumindo-se como centro de definição do sentido de sua própria vida." (p.135), desse modo, reconhecer-se e ter apoio do outro e ao mesmo tempo buscar o seu próprio protagonismo na vida torna-se essencial, principalmente na conjuntura atual do país, onde legitima-se a intolerância, a violência e o preconceito. Portanto, as narrativas dessas mulheres representam na atualidade uma maneira de dizer " ninguém solta a mão de ninguém", porém, em formato de histórias em quadrinhos.











Amanhã há de ser outro dia

É exatamente uma das primeiras certezas que tenho quando faço avaliação deste primeiro semestre. Acharia muito estranho alguém não t...