Quando iniciei a leitura dos textos, passei a perceber que os autores colocam em questão alguns critérios para identificar o que vem a ser a cidadania digital. Tais critérios transcendem uma mera apropriação das tecnologias, ao acesso de informações nas redes, mas implica no uso que possuam uma relevância social, que promova ações de ordem participativas e democráticas em torno principalmente dos desfavorecidos, envolve inclusive a questão dos direitos humanos.
Enquanto pensava a respeito destes pontos, uma imagem não saía da minha memória. Então, resolvi fazer uma reflexão a partir desta imagem, relatando algumas percepções, provocações que emergiram durante o processo de construção do texto. Segue a imagem logo abaixo:
A primeira vez que me deparei com essa imagem (aproximadamente 3 meses) eu fiquei encantada. A priori, tocada pelo fato de ver uma selfie tirada de uma tribo indígena em um momento de realização dos seus rituais, algo que costuma ser distante de quem vive nas áreas urbanas, mas que pude ter acesso através de uma rede social. Em segundo, pela tradição cultural e pela beleza dos acessórios e pinturas presentes em seus corpos.
Ao rever a selfie, automaticamente retomei essas impressões que obtive pela primeira vez que a vi, no entanto, comecei a pensar sobre outras questões.
Os indígenas têm uma história marcada pelo genocídio, pois desde o "descobrimento do Brasil", tiveram suas terras invadidas pelos europeus (principalmente os portugueses), foram catequizados, seus hábitos culturais praticamente diluídos, mulheres violentadas e diversas etnias indígenas existentes no Brasil foram extintas. Os verdadeiros donos dessa terra, hoje, após mais de 500 anos do "descobrimento", ainda precisam lutar pelos poucos territórios que lhes restaram e precisam lutar por mais demarcação de terras, muitos deles estão sendo mortos por esse motivo. São 500 anos de genocídio que ainda permanece, mas também, são 500 anos de resistência. Assim, os índios, tornaram-se uma minoria que carecem de assistência digna à saúde, à educação, à preservação da sua cultura, das suas reservas, embora teoricamente tenham seus direitos garantidos pela Constituição Federal no artigo 231.
https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_08.09.2016/art_231_.asp
https://www.senado.leg.br/atividade/const/con1988/con1988_08.09.2016/art_231_.asp
Mediante essas questões, passei a pensar como tem sido a relação dos índios com as tecnologias digitais? O que tem sido feito para tenham a possibilidade de utilizá-las como forma de reivindicar seus direitos?
Então, resolvi fazer uma pesquisa breve sobre sites e redes sociais que abordem pautas relacionadas a causas indígenas. Darei destaque apenas a "índios online" por acreditar que contempla minha indagações nesse momento.
https://www.indiosonline.net/
A índios online caracteriza- se como um canal de diálogo intercultural com a finalidade de promover a comunicação e informação entre os diversos povos indígenas e a sociedade em geral. Organizada por índios voluntários residentes na região Nordeste, o canal tem parceiros como a Ong THYDÊWÁ e o Ministério da Cultura (não sei como se encontra essa parceria no momento, já que o atual governo extinguiu o referido Ministério). Através do canal, eles buscam o resgate, a preservação e a valorização das suas culturas, disponibilizando pesquisas, textos, vídeos e fotos como maneira de salvaguardar seus bens imateriais. Além disso, buscam o respeito as diferenças, garantia dos seus direitos e lutam por mais parcerias para que possam colocar internet em outras aldeias e pretendem desenvolver áreas de importância para eles como a de sustentabilidade, por exemplo.
Realizar o mapeamento neste site fizeram-me perceber questões importantes. A índios online desconstrói uma visão etnocêntrica e historicamente equivocada sobre os índios e que foram reforçadas pelos meios de comunicação de massa em que se transmitia a ideia do índio como um selvagem, por conta disso, existe muitas críticas preconceituosas sobre o acesso dos índios as tecnologias digitais, como se a sua utilização ocasionasse a descaracterização da sua cultura, e portanto, deixariam de ser índios. Ao contrário disso, a índios online transmite a ideia que os índios continuam sendo índios e o uso de computadores e celulares favorecem a manutenção das suas culturas, como também, servem como um canal de denúncias, principalmente no que se refere aos ataques da mídia televisiva que favorecem os fazendeiros e os colocam como marginais, sem contar os índios que são mortos por conta de conflitos de terras e a TV não divulga. Os próprios índios destacam a importância das tecnologias como mostra o vídeo abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=INbTIBqBUBk
Na verdade, fica evidenciado que o genocídio, a assistência precária, a retirada dos seus direitos fundamentais, as tentativas de isolamento e silenciamento, e a evangelização são os causadores da destruição dos povos indígenas, dos seus costumes, valores e crenças...
Dessa forma, em tempos que o atual presidente se declara contra a demarcação de terras indígenas com a indagação: "Por que no Brasil temos que mantê-los reclusos em reservas, como se fossem animais em zoológicos?", torna-se evidente que seus interesses não envolve a questão dos índios, que sequer foram ouvidos sobre como de fato querem viver, mas sim, quando anuncia a transferência da responsabilidade de demarcação de terras da Funai para o Ministério da agricultura, deixando claro que sua intenção é beneficiar o agronegócio e os ruralistas como forma de lucrar, bem como uma forma de "agradecimento" pelo apoio durante o período eleitoral, o famoso "toma lá, da cá". Em tempos que o presidente defende a saída dos índios de suas terras para viver como "gente" nas cidades, fica claro que seu discurso velado é apenas uma desculpa para exploração de minérios existentes nas reservas indígenas que segundo ele próprio “Onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela". Em tempos que as tentativas de cerceamento dos povos indígenas parte do mais alto cargo do poder executivo, inclusive com apoio significativo dos ditos "cidadãos de bem", as TICs passam a ser ferramentas essenciais para os povos indígenas como forma de se organizarem em prol dos seus direitos, na manutenção de suas tradições, na luta que travam ao longo da nossa história por direito à terra, por direito de serem reconhecidos como cidadãos (ainda resta muito a ser feito). Sendo assim, a busca do exercício da cidadania digital praticada pelos índios contribuem para que suas reivindicações transcendam barreiras territoriais, favorecem a desconstrução de estereótipos, contribuem para um maior conhecimento de causa e tomada de consciência acerca do que enfrentam diariamente, permite compreender que em uma democracia que está cada vez mais fragilizada, exercer a cidadania digital serve como escape para que ir de encontro a tudo que fere a garantia de liberdade de expressão e a busca por um mundo melhor.
A índios online caracteriza- se como um canal de diálogo intercultural com a finalidade de promover a comunicação e informação entre os diversos povos indígenas e a sociedade em geral. Organizada por índios voluntários residentes na região Nordeste, o canal tem parceiros como a Ong THYDÊWÁ e o Ministério da Cultura (não sei como se encontra essa parceria no momento, já que o atual governo extinguiu o referido Ministério). Através do canal, eles buscam o resgate, a preservação e a valorização das suas culturas, disponibilizando pesquisas, textos, vídeos e fotos como maneira de salvaguardar seus bens imateriais. Além disso, buscam o respeito as diferenças, garantia dos seus direitos e lutam por mais parcerias para que possam colocar internet em outras aldeias e pretendem desenvolver áreas de importância para eles como a de sustentabilidade, por exemplo.
Realizar o mapeamento neste site fizeram-me perceber questões importantes. A índios online desconstrói uma visão etnocêntrica e historicamente equivocada sobre os índios e que foram reforçadas pelos meios de comunicação de massa em que se transmitia a ideia do índio como um selvagem, por conta disso, existe muitas críticas preconceituosas sobre o acesso dos índios as tecnologias digitais, como se a sua utilização ocasionasse a descaracterização da sua cultura, e portanto, deixariam de ser índios. Ao contrário disso, a índios online transmite a ideia que os índios continuam sendo índios e o uso de computadores e celulares favorecem a manutenção das suas culturas, como também, servem como um canal de denúncias, principalmente no que se refere aos ataques da mídia televisiva que favorecem os fazendeiros e os colocam como marginais, sem contar os índios que são mortos por conta de conflitos de terras e a TV não divulga. Os próprios índios destacam a importância das tecnologias como mostra o vídeo abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=INbTIBqBUBk
Na verdade, fica evidenciado que o genocídio, a assistência precária, a retirada dos seus direitos fundamentais, as tentativas de isolamento e silenciamento, e a evangelização são os causadores da destruição dos povos indígenas, dos seus costumes, valores e crenças...
Dessa forma, em tempos que o atual presidente se declara contra a demarcação de terras indígenas com a indagação: "Por que no Brasil temos que mantê-los reclusos em reservas, como se fossem animais em zoológicos?", torna-se evidente que seus interesses não envolve a questão dos índios, que sequer foram ouvidos sobre como de fato querem viver, mas sim, quando anuncia a transferência da responsabilidade de demarcação de terras da Funai para o Ministério da agricultura, deixando claro que sua intenção é beneficiar o agronegócio e os ruralistas como forma de lucrar, bem como uma forma de "agradecimento" pelo apoio durante o período eleitoral, o famoso "toma lá, da cá". Em tempos que o presidente defende a saída dos índios de suas terras para viver como "gente" nas cidades, fica claro que seu discurso velado é apenas uma desculpa para exploração de minérios existentes nas reservas indígenas que segundo ele próprio “Onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela". Em tempos que as tentativas de cerceamento dos povos indígenas parte do mais alto cargo do poder executivo, inclusive com apoio significativo dos ditos "cidadãos de bem", as TICs passam a ser ferramentas essenciais para os povos indígenas como forma de se organizarem em prol dos seus direitos, na manutenção de suas tradições, na luta que travam ao longo da nossa história por direito à terra, por direito de serem reconhecidos como cidadãos (ainda resta muito a ser feito). Sendo assim, a busca do exercício da cidadania digital praticada pelos índios contribuem para que suas reivindicações transcendam barreiras territoriais, favorecem a desconstrução de estereótipos, contribuem para um maior conhecimento de causa e tomada de consciência acerca do que enfrentam diariamente, permite compreender que em uma democracia que está cada vez mais fragilizada, exercer a cidadania digital serve como escape para que ir de encontro a tudo que fere a garantia de liberdade de expressão e a busca por um mundo melhor.

Eu não diria que o uso do digital é um escape, vejo mais como tática, na perspectiva de Certeau, organizativa e de visibilidade de um povo, de uma cultura. E os indígenas perceberam isso já lá no início do processo de alastramento da internet no Brasil, quando reagiram a uma matéria que dizia que levar internet para as aldeias significava matar a cultura indígena. A resposta foi: não queremos a internet para consumir a cultura do branco, queremos para que o branco conheça a nossa cultura. De lá para cá foram muito além disso, e hoje estão atuando, reivindicando, lutando por direitos, pela rede.
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