Ao me debruçar sobre a leitura do Bauman (2001), foi perceptível que o autor algumas questões acerca das relações entre tempo-espaço, no entanto, me deterei a algumas afirmações do texto que chamaram atenção:
"No universo de software da viagem à velocidade da luz, o
espaço pode ser atravessado, literalmente, em "tempo nenhum";
cancela-se a diferença entre "longe"e "aqui' O espaço não impõe mais limites à ação e seus
efeitos, e conta pouco, ou nem conta."
"A quase-instantaneidade do tempo do software anuncia a
desvalorização do espaço."
Bauman (2001) faz referência a um era moderna onde alguns aspectos, dentre os quais, as tecnologias minam a relação entre tempo-espaço. Tais afirmações me trouxeram questionamentos por discordar da percepção do autor. Ao meu ver, não há uma desvalorização do espaço por conta do tempo, mas sim, uma reconfiguração, uma noção atualizada do seria a relação entre tempo-espaço ocasionada com o advento das tecnologias. Como forma de exemplificar a discussão aqui trazida, eu me recordei de uma música de Gilberto Gil que ouvia na minha infância, a Parabolicamará, que suscita exatamente essa questão envolvendo o tempo e o espaço:
"Antes mundo era pequeno
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará"
Porque Terra era grande
Hoje mundo é muito grande
Porque Terra é pequena
Do tamanho da antena parabolicamará
Ê, volta do mundo, camará
Ê-ê, mundo dá volta, camará"
Antes longe era distante
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
Perto, só quando dava
Quando muito, ali defronte
E o horizonte acabava
Hoje lá trás dos montes, den de casa, camará
[...]De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
Pela onda luminosaLeva o tempo de um raio [...]"De saveiro leva uma encarnação
A referida música foi gravada em 1991, no entanto, já destaca mudanças no que se refere ao encurtamento da distância e a percepção de tempo. Moura (2016) ao fazer uma análise de alguns trechos da música destaca que o termo "Parabolicamará" é um neologismo criado por Gil, é um termo que associa a parabólica, uma antena que capta programas de televisão via satélite, por sua vez, um instrumento muito avançando na década de 90, já que nesse período a internet não era acessível as classe menos desfavorecidas, porém, as antenas parabólicas estavam presentes nas regiões mais pobres do país. Já o termo camará, é oriundo da palavra camarada, expressão que segundo o autor é comumente utilizada entre os jogadores de capoeira. O autor cita as palavras de Gil onde com este termo ele pretendia trazer os contrastes de diversos mundos (rural e urbano; artesanal e industrial) utilizando um termo simples, tinha como finalidade tentar trazer todas as interações de mundo possíveis.
Desse modo, a letra da música evoca em mim um visão praticamente futurista (não pessimista) de Gil, pois antes da intensa disseminação da internet, ele capta o poder transformador da tecnologia envolvendo aspectos interacionais e culturais, nesse caso, a tecnologia representada pela antena parabólica que já a partir dali modifica a percepção de mundo e modifica os limites até então demarcados entre tempo e espaço.
Ainda trazendo a discussão envolvendo tempo e espaço, porém, trazendo questões recentes, Becker (2017) ao
realizar uma pesquisa sobre a apropriação criativa das tecnologias digitais
feitas com crianças, constatou o que ela denomina de " continuum tempo-espaço" que se caracteriza como uma construção híbridas de tempo e espaço percebidas em arranjos lúdicos infantis através das ambiências digitais. Durante a observação, uma criança (9 anos) pede a pesquisadora para entrar no aplicativo Whatsaap e começa a digitar. A criança, então, explica que está brincando de faz-de-conta com outros colegas, relatando que a brincadeira teve início no recreio da escola, mas como o tempo do recreio acabou, elas resolveram dar continuidade através do aplicativo Whatsaap. Assim, elas criaram o grupo Brincadeira Medieval (temática do faz-de-conta) como forma de dar continuidade a brincadeira mesmo após o horário das aulas, já que não poderiam se encontrar fora da escola. A brincadeira passou a acontecer tanto no pátio da escola, quanto no celular. A pesquisadora destaca que até aquele momento da observação a brincadeira já durava aproximadamente 3 meses.
Esse dado revela uma apropriação de espaço físico, das tecnologias móveis e uma noção distinta de "tempo de brincadeira". Segundo Becker (2017), as tecnologias móveis tem se tornado locais de interações lúdicas nas brincadeiras de crianças, além disso, devido a sua característica móvel, o "onde" perderia sua noção de imobilidade devido a constante facilidade de deslocamento dos usuários que portam os aparelhos. Acerca da questão tempo, Becker (2017) supõe um novo olhar das crianças sobre o tempo das brincadeiras, pois o que leva um faz-de-conta durar três meses?
A autora destaca pode estar relacionada a interrupção das brincadeiras das crianças para desempenharem alguma atividade relacionada a escola, ou a outra atividade extra-escolar (balé, natação, etc.). O não ter tempo para brincar relatada pelas crianças nesta pesquisa, sugere a criação de estratégias das crianças para brincarem de alguma forma. É como se o tempo e espaço estivessem fragmentados e não necessariamente extintos. Não destaco esses pontos como uma verdade absoluta, mas como questões a serem inicialmente debatidas e questionadas, porém, percebendo a noção de tempo-espaço consideravelmente distinta trazida por Bauman, se de fato consegui alcançar o seu nível de compreensão...
A partir dos elementos trazidos aqui, lanço uma olhar de que ao longo dos anos tem ocorrido uma atualização do se entende o que é tempo e espaço, as tecnologias de um modo geral, tem propiciado esses modificações, pois, por exemplo, a compreensão de espaço transcende a ideia de territorialidade do qual nos acostumamos a conceber. As redes sociais retratam exatamente que estar junto não necessariamente implica estar em um espaço físico.Crianças e adolescentes possivelmente possuem um nível de compreensão mais apurado do que nós adultos. A ação humana tem sido decisiva para estas novas configurações.
Em suma, entendo que as tecnologias alteram o tamanho e o tempo no mundo, podem até subverter o espaço, encurtar o tempo, mas jamais destituí-los.
Referências:
Referências:
Becker, B. (2017). Infância, Tecnologia e Ludicidade: a
visão das crianças sobre as apropriações criativas das tecnologias digitais e o
estabelecimento de uma cultura lúdica contemporânea Tese de Doutorado.
Instituto de Psicologia, Universidade Federal da Bahia. Salvador/BA.
Moura, F. T. (2016). A Análise da música "Parabolicamará" de Gilberto Gil sob a perspectiva Focoultiana e sua potencialidade para o ensino. Revista Eletrônica da pós-graduação em Educação, (12) 1, 1-10.

Olá Iris,
ResponderExcluirnão vejo contradição entre a tua percepção e a de Bauman. O quee vc chama de reconfiguração e o que ele chama de desvalorização, conduzem ao mesmo ponto. Ele se refere ao conceito clássico de espaço, que justamente, por sua reconfiguração, perde o valor que tinha. Os exemplos que vc traz mostram justamente isso.
Oi Bonilla,
ResponderExcluirAgora que você destacou esse ponto, atentei que fiz uma leitura equivocada do texto.Tive uma impressão pessimista da visão do autor, algo que pode ter me contaminado no momento da interpretação. Destaco em um momento do texto sobre minha incerteza, se de fato havia compreendido o autor, o que de fato agora se confirmou com seu comentário. Grata pelas observações!