As Histórias em Quadrinhos (HQs) passou a fazer parte da minha vida nos primeiros anos da minha infância. Aos seis anos de idade, quando estava na alfabetização, minha mãe começou a comprar gibis da turma da Mônica por recomendação da minha professora. Eu tenho as melhores lembranças desse período, pois o processo de aquisição da leitura e da escrita foi muito prazeroso, porque a cada sílaba, a cada palavra, a cada frase dita pelos personagens que conseguia compreender, envolvia-me facilmente na história.
À medida que fui crescendo, as HQs da Mônica e sua turma já não empolgava como antes e assim, fui perdendo o contato com os quadrinhos. No entanto, pude perceber as transformações ocorridas com as HQs como por exemplo, quadrinhos com audiodescrição, quadrinhos personalizados. Hoje é possível encontrar várias ferramentas gráficas que permite você cria sua própria HQ.
Apesar de não ser mais uma leitora assídua de HQs da turma da Mônica, ainda me interesso por outros tipos de quadrinhos, porém, que contenham temáticas relevantes para a sociedade, bem como, que tenha a finalidade entreter e divertir. Não somente HQs, mas também, charges, tirinhas, memes, caricaturas, etc. Inclusive sigo algumas tanto no Facebook como no Instagram.
É sobre uma delas que escreverei hoje denominada de " Aconteceu Comigo."
Aconteceu comigo, criado em 2015, trata-se de uma série de narrativas vivenciadas por mulheres que passaram por alguma situação discriminatória ou violência como racismo, gordofobia, lesbofobia, assédio sexual e machismo que são transformadas em HQs. A idealizadora desse projeto, Laura Athayde, recebe os relatos das mulheres através do Facebook, na sua página e no seu Instagram através de um formulário online anônimo, caso elas queiram que suas histórias sejam mantidas em sigilo, embora algumas pedem para ser identificadas.
http://ltdathayde.tumblr.com/post/138622812271/mais-uma-hist%C3%B3ria-real-da-s%C3%A9rie-aconteceu-comigo
https://www.instagram.com/ltdathayde/
https://www.facebook.com/ltdathayde/?epa=SEARCH_BOX
A história acima retrata um caso de abuso sexual sofrido por uma criança, onde o abusador não foi responsabilizado pelo crime cometido, e certamente a vítima foi chamada de "mentirosa" não só por ele, como por outras pessoas, situações como deste tipo infelizmente são recorrentes no Brasil. O propósito segundo a autora dos quadrinhos é favorecer o encorajamento de mulheres que passaram ou passam pela mesma situação narrada nos quadrinhos, bem como promover a empatia. Além disso, são percebidas reações diversas das seguidoras perante os quadrinhos como palavras de apoio, de indignação, algumas se identificam com as histórias e acabam relatando suas experiências nos comentários.
Diferente dos Gibis da turma da Mônica que as histórias narradas eram um pouco maiores, os HQs criados nas redes ainda tendem a seguir uma narrativa imagética, no sentido que textos e imagens se completam, porém, com textos mais curtos e de leitura rápida, o que sugere uma maior possibilidade de compartilhamento, transmitindo conteúdos com mensagens importantes com uma estrutura aparentemente simples.
Dessa forma, considero um trabalho interessante pelo fato da criadora do projeto nunca ter vivenciado nenhuma das histórias relatadas nos quadrinhos, todavia, através do seu trabalho, coloca-se como uma ponte de comunicação para que mulheres tenham a possibilidade de contarem suas histórias, ainda que todas tristes e nem todas com final feliz, todavia, algumas com mensagens de otimismo e resiliência, colaborando para que exista uma maior sororidade entre as mulheres, o que favorece sentirem-se menos sozinhas e com maior apoio. Segundo Follain (2017), as pequenas narrativas se propagam como forma de autoproteção e resistência perante experiências cotidianas onde grupos colocados à margem ao longo da história buscam afirmar sua memória e identidade, como é o caso das mulheres presentes nas HQs, onde a maioria são mulheres negras, lésbicas, gordas, transgênero ou com algo tipo de deficiência (cadeirante e autista, por exemplo), são historicamente invisibilizadas na nossa sociedade, e portanto, passíveis a toda forma de discriminação e violência. Assim, como destaca Follain (2017) as narrativas tornam-se um "recurso utilizado pelo indivíduo, em sua solidão existencial, para se conectar com outro e para reatar os fios partidos das narrativas identitárias, assumindo-se como centro de definição do sentido de sua própria vida." (p.135), desse modo, reconhecer-se e ter apoio do outro e ao mesmo tempo buscar o seu próprio protagonismo na vida torna-se essencial, principalmente na conjuntura atual do país, onde legitima-se a intolerância, a violência e o preconceito. Portanto, as narrativas dessas mulheres representam na atualidade uma maneira de dizer " ninguém solta a mão de ninguém", porém, em formato de histórias em quadrinhos.
Dessa forma, considero um trabalho interessante pelo fato da criadora do projeto nunca ter vivenciado nenhuma das histórias relatadas nos quadrinhos, todavia, através do seu trabalho, coloca-se como uma ponte de comunicação para que mulheres tenham a possibilidade de contarem suas histórias, ainda que todas tristes e nem todas com final feliz, todavia, algumas com mensagens de otimismo e resiliência, colaborando para que exista uma maior sororidade entre as mulheres, o que favorece sentirem-se menos sozinhas e com maior apoio. Segundo Follain (2017), as pequenas narrativas se propagam como forma de autoproteção e resistência perante experiências cotidianas onde grupos colocados à margem ao longo da história buscam afirmar sua memória e identidade, como é o caso das mulheres presentes nas HQs, onde a maioria são mulheres negras, lésbicas, gordas, transgênero ou com algo tipo de deficiência (cadeirante e autista, por exemplo), são historicamente invisibilizadas na nossa sociedade, e portanto, passíveis a toda forma de discriminação e violência. Assim, como destaca Follain (2017) as narrativas tornam-se um "recurso utilizado pelo indivíduo, em sua solidão existencial, para se conectar com outro e para reatar os fios partidos das narrativas identitárias, assumindo-se como centro de definição do sentido de sua própria vida." (p.135), desse modo, reconhecer-se e ter apoio do outro e ao mesmo tempo buscar o seu próprio protagonismo na vida torna-se essencial, principalmente na conjuntura atual do país, onde legitima-se a intolerância, a violência e o preconceito. Portanto, as narrativas dessas mulheres representam na atualidade uma maneira de dizer " ninguém solta a mão de ninguém", porém, em formato de histórias em quadrinhos.

E o digital possibilita que essas narrativas possam se dar a partir de uma série de outras linguagens, puras ou híbridas, descentralizando o centro de emissão e possibilitando que todos, a partir de seus próprios contextos, possam produzir suas próprias narrativas. É o que André Lemos fala sobre a liberação do polo de emissão.
ResponderExcluirFalar sobre o que angustia é um remédio que traz alívio...Em tempos de tantos eventos relativos ao feminicídio, à luta das mulheres para afirmar seu espaço, as historinhas dão voz e vez a essas angústias, tirando de dentro e se espalhando, servindo de exemplo. É sempre muito bom saber que iniciativas como essas estão por aí! Aplausos! Obrigada pela partilha, Iris! Abraço
ResponderExcluirVerdade! Todo trabalho que favorece o protagonismo das mulheres que sofrem algo tipo de violência, é valido e de fato conforta e ameniza um pouco a dor. Por nada! Abs!
ExcluirQue lindo projeto, Iris! Eu não conhecia. Obrigada por apresentá-lo.
ResponderExcluirProjetos como esse dão voz para que se conheçamos narrativas que outrora encontravam-se caladas, seja pela injustiça, falta de espaço, apoio, entre outros.
Eu conheci há uns 5 meses mais ou menos e achei muito interessante, Beth! Por anda!
ExcluirSomos historicamente silenciadas e acho que essa é uma forma de dar visibilidade o que mulheres sofrem diariamente!
Abs!