segunda-feira, 10 de junho de 2019

Nativo e imigrante digital: de quem estamos falando?

Quem foi criança nas décadas de 80 e 90 como eu, certamente vão lembrar das provas mimeografadas que chegavam as nossas mãos ainda quentes e com cheiro álcool. A professora escrevia no quadro negro os assuntos do dia, as tarefas para fazer na escola e as tarefas de casa. Quadro que muitas vezes foi utilizado, por nós, alunos, para brincarmos de jogo da velha na hora do recreio, principalmente em dias chuvosos como hoje.



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 Era comum ter sempre uma enciclopédia em casa ou ir às bibliotecas pesquisar assuntos que as professoras pediam para fazermos trabalhos da escola. Copiar exatamente tudo que estava nos livros em folhas de papel pautado, colar gravuras, utilizar letreiros ( ou na mão grande mesmo) e decorar as letras com hidrocor e glitter. Do mesmo modo, fazíamos com trabalhos feitos com cartolina e papel metro e sempre que possível acrescentávamos o papel crepom, é claro.

Obviamente que crianças de hoje não terão a possibilidade de ter um prova mimeografada, nem escrever em um quadro negro, do mesmo modo que, não tivemos acesso as tecnologias utilizadas no tempo dos nossos avós mas, compreendo que tecnologias desenvolvidas em diferentes momentos ao longo da história da humanidade tiveram sua importância para em suas respectivas épocas.
 Considero importante termos memórias do quanto essas tecnologias foram úteis, porém, acho importante vislumbramos o quanto as tecnologias avançaram que até aqui, sem desconsiderá-las por conta do nosso saudosismo. Algumas deixaram de existir, algumas foram aprimoradas com o tempo e com ela a inventividade do ser humano se aprimora. Foram essas sensações iniciais que o texto de Serres (2013) despertou em mim, quando parece ter um certo saudosismo, acompanhado de uma olhar para o futuro. 
Quando ele se refere ao termo "Polegarzinha" acredito que expressa metaforicamente o uso tecnologias digitais, principalmente por crianças associando o modo como digitam usando os dedos polegares. Obviamente, que o termo utilizado não está restrito apenas ao utilização dos dedos, mas o autor traça uma perspectiva que com o uso dos celulares, o mundo cabe na palma da mão e com isso eles " não habitam mais no mesmo espaço" (p.19), pois podem ter acesso a todos os lugares, consequentemente, ocasionando modificações no paradigma educacional, principalmente sobre o espaço da aprendizagem. Para o autor, o conhecimento estava concentrado em um lugar: em livros, dicionários, enciclopédias, na biblioteca etc. Atualmente “todo esse saber, essas referências, esses textos, esses dicionários se encontram […] distribuídos por todo lugar, na sua própria casa” (p.26).
Não discordo do autor sobre estes aspectos, mas por outro lado, não acho que as tecnologias digitais sejam determinantes para tais mudanças que acontecem na sociedade e na educação, visto que muitos ainda não têm acesso as tecnologias. Então, fiquei me questionando:
 "Polegarzinha" é um termo que se aplica a todas as crianças?  Será que o termo "Polegarzinha" não pode ser vinculado a outras faixas etárias?
As minhas inquietudes partem principalmente quando estabeleço um comparativo de como se sucede o acesso as tecnologias entre as pessoas do bairro onde moro, para o bairros de classe média, por exemplo. Como disse na reação anterior, transito por esses bairros e percebo a diferença não apenas sobre o acesso das tecnologias digitais, mas a finalidade e tipos de conteúdos que acessam. É muito claro que crianças das periferias têm pouco acesso, porque grande parte delas utilizam pacote de dados móveis de internet que logo se esvai, diferente das crianças de classe média que têm acesso a WiFi e maiores possibilidades de adquirir conhecimento.
Do mesmo modo, adultos e idosos de distintas classes sociais possuem modos distintos de acesso. Como já relatei anteriormente, adultos e a maioria dos idosos do bairro onde moro utilizam celulares apenas para conversas no Whatsaap, enquanto pessoas da mesma faixa etária, de classe média que tenho convívio, definitivamente me botam no chinelo quando o assunto envolve tecnologias digitais. 
Perceber essas questões recai no ponto destacado por Morales (2018) onde estabelece um debate sobre concepções trazidas por Tapscott e Prensky que associam o marco geracional como fator determinante no uso das tecnologias, ou seja, os nascidos na era digital são mais aptos e habilidosos no uso das tecnologias. Morales (2018) desconstrói a perspectiva trazida pelos autores destacando que os pertencentes a uma geração mais contemporânea não determina se um indivíduo será tipicamente um nativo digital, mas sim,  as condições socioeconômicas, educacionais e culturais. Dessa forma, a autora contribui de forma significativa para a desconstrução de estereótipos de que apenas os mais jovens possuem competências necessárias para lidar com as tecnologias digitais.

Um comentário:

  1. Sim, cada época é marcada por um contexto tecnológico específico, mas isso não quer dizer que todos os seres humanos que vivem essa época usufruem, interagem com as tecnologias de seu tempo, da mesma forma. Fatores econômicos, educacionais e sociais são balizadores da experiência vivida por cada um, em cada tempo histórico. Por isso não podermos rotular fases, nem dos processos, nem dos sujeitos.

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