A motivação para escrever sobre esse tema parte de
observações diárias ao utilizar as redes sociais. Desde da época do Orkut, já
havia presenciado mães que criavam perfis para seus bebês, do mesmo modo no
Facebook e nos blogs. No entanto, nos últimos meses, tenho percebido também no
Instagram. O perfil que mais chamou minha atenção foi o do Enrico Bacchi, filho
de uma atriz chamada Karina Bacchi, pois o seu perfil possui 1,8 milhão de
seguidores. Suponho que seja o bebê com o maior numero de seguidores do país. O
perfil possui modo público, é composto por diversas fotos da criança, a legenda
tem a narrativa como se fosse o próprio Enrico tivesse escrito.
Um outro detalhe, é um link disponibilizado no
perfil que acessa a loja da atriz, que vende roupas infantis, acessórios e
roupas femininas. Sem contar que algumas postagens fazem divulgações de agências,
lojas, etc. Ao que parece, as roupas que foram utilizadas pelo Enrico e não
cabem mais nele também são vendidas, pois as mães procuram informações sobre as
roupas que ele usa no intuito de comprar para seus filhos. O Enrico de uma certa forma é
como se fosse um baby influencer.
Possivelmente, a Karina não tenha sido a primeira a
criar um perfil para seu filho, mas acredito que por ser conhecida levou muitas
mães a fazerem o mesmo. Por isso, visitei outros perfis de bebês e percebi que
poucos faziam algum tipo de divulgação de produtos, no geral, notei que a
criação destes perfis, têm a finalidade de compartilhar sua vida diária com
seus filhos com familiares, amigos e desconhecidos, trocar experiências com
outras mães que passaram pelas mesmas questões, por exemplo, o nascimento de
bebês prematuros, bebês que trocam o dia pela noite, dentre outros. Elas
compartilham entre si o que vivenciaram durante a gravidez e no pós-parto,
período que consideram o mais difícil pela adaptação de uma nova rotina com o
bebê, bem como as alterações hormonais que ocorrem neste período.
Além disso, parece existir uma necessidade de
inserir seus bebês nas redes sociais já desde os primeiros dias vida, bem como
o interesse em construir uma espécie acervo contendo fotos, vídeos com diversas
etapas de desenvolvimento como forma preservar a memória desse período para que
seus filhos tenham acesso quando maiores.
A exposição da rotina diária com seus bebês parece
ocorrer de forma tranquila, porque é notória a satisfação quando os seguidores
fazem comentários elogiando seus filhos, afinal, acredito que todo sentimento
de uma mãe por um filho é achar que é o mais lindo de todos. Ser mãe e poder
mostrar seu filho ao maior número de pessoas possível parece " massagear o
ego". Acredito que mexe diretamente na construção cultural romantizada de
que uma mulher só será completa quando torna-se mãe, apesar de todos os
percalços que a maternidade representa, apesar dos diversos comentários do tipo
" Porque ninguém me falou sobre isso antes? Eu não sabia que ser mãe era
assim", percebe-se que ser mãe e ter a possibilidade mostrar isso nas
redes transmite a ideia de estar em um outro patamar, a concretização de uma
mulher feliz e realizada em meio as dificuldades e conflitos trazidos pela
maternidade.
Dessa forma, percebe-se que criar perfis de bebês
no Instagram confere uma série de finalidades. O propósito de compartilhar
experiências adquire não apenas o aprendizado, mas de uma certa forma adquire
uma finalidade terapêutica perante a maternidade. A função reforçadora das
curtidas e comentários de promover um bem-estar diário mediante fotos de um
filho, que para além disso, traz de uma forma digamos "velada" a
narrativa de si mesma como mãe e como estou sendo avaliada desempenhando esse
papel. A necessidade de preservar nas redes fotos e vídeos do bebê, funcionando
como um memorial. A possibilidade de divulgar marcas de produtos ou divulgar
seu próprio negócio.
Não sei se minhas inferências sobre o que percebi foram superficiais, mas certamente ao escrever essa reação, passei a desenvolver uma outra ótica sobre minha compreensão a respeito desses perfis. Principalmente de pensar sobre hábitos, narrativas e uma série de aprendizados a partir de trocas de experiências que até então estavam passando despercebidas, por ter construído uma visão única e negativa dos riscos que as redes sociais também podem oferecer com a frequente exposição de bebês. É pensar que nas redes sociais existirá sempre uma linha tênue entre o que pode ser vantajoso e os possíveis riscos ao utilizá-las.
Em meio a todo esse fascínio da visibilidade que as redes sociais proporciona, é bem possível que em futuro não muito distante, esses bebês de hoje tornem-se crianças que passarão a gerenciar seus próprios perfis no Instagram.

Importante perceber que nessas redes uma série de fatores estão se cruzando: subjetivos, econômicos, culturais, políticos, e que, por isso mesmo, não é possível analisar esses fenômenos a partir de uma única ótica. A complexidade é a marca da contemporaneidade. Tentemos nos mover nesse turbilhão sem nos deixar tragar pela simplificação e superficialidade...
ResponderExcluirÉ interessante. Penso em diversas questões. A primeira delas é sobre o limite da privacidade das crianças: têm os pais direitos sobre os seus filhos como para exibir a suas vidas desse jeito? Muitas redes restringem o uso dessas plataformas para adultos, nesse caso, quais são as regulações para proteger a privacidade deles? Como controlar o uso dessas fotos...? São apenas algumas interrogantes sobre essa nova tendência.
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