domingo, 17 de março de 2019

Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura (Lúcia Santaella

A partir das leituras realizadas dos capítulos 2, 3 e 4 do livro Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura, da autora Lúcia Santaella (2003), permite-se fazer as seguintes reflexões:
No segundo capítulo, denominado de cultura midiática, a autora destaca o surgimento da cultura das massas, no século XX, através do que afirma ser "meios de reprodução técnico-industriais" como fotos, jornais e cinema - assim como, os meios eletrônicos como rádio e televisão. Segundo a autora, a ascensão da cultura das massas ocasionou possíveis fluxos de fronteiras entre o popular e o erudito, o tradicional e o moderno, o artesanal e industrial, características híbridas que são inerentes das culturas urbanas. Além disso, com o advento de novas tecnologias na década de 80 (videocassetes, TV a cabo, fotocopiadoras, etc.), indica uma relação de hibridismos entre os meios de comunicação, que Santaella denomina de cultura das mídias. A criação do termo tinha como finalidade dar conta das novas configurações culturais neste período que pudesse diferenciar da cultura das massas, já que os consumidores da cultura das massas não tinha participação direta na produção simbólica que consumiam, assim, a cultura das mídias é o ponto de partida onde as mídias favorecem a possibilidade de escolha dos consumidores de produtos simbólicos variados.
 Apesar do surgimento das novas tecnologias, a autora destaca que os meios de comunicação de massa e seus aspectos culturais não deixaram de existir. Ao contrário, no âmbito cultural, houve um reconfiguração nas formas de produção das culturas populares e eruditas. No que se refere aos meios de massa, destaca a parceria entre cinema e TV a cabo, no entanto, sinaliza parceiras futuras da TV digital, computador e redes de telecomunicação. Parceria que já se confirma na atualidade com a Smart TV, que se conecta a internet, possui Skype, jogos, acesso planos da Netflix, etc.

Para o fechamento das discussões sobre o capítulo 2, trago as duas charges acima, por exemplo, abordando a cultura das massas e cultura das mídias retratados por Santaella (2003). A primeira charge, remete a cultura das massas, onde Mafalda faz uma crítica a TV pelo fato de estimular seus telespectadores ao consumo através das propagandas publicitárias, onde não oferece possibilidade escolhas, pois apenas recebe as informações e não permite a possibilidade de questionamento direto perante o que assiste. A segunda charge, retrata a cultura das mídias, retratando a interação entre as mídias, porém, o controle remoto exercendo o papel de filho, sugerindo a ideia de ser uma tecnologia atual e que indica possibilidade de crítica, indaga a manipulação dos meios de comunicação, e seus pais representados pela TV tentam desmentir seu questionamento argumentando que a manipulação midiática é tão fictícia como os filmes e as novelas.
No capítulo 3, uma visão heterotópica das mídias digitais, Santaella (2003) retoma a conceituação da palavra mídia que a priori referia-se apenas aos meios de comunicação de massa, todavia, foi perdendo seu caráter exclusivo com o surgimento as "redes de teleinformática". No entanto, enfatiza que as mídias não devem ser tratadas de forma isolada, mas sim, contextualizadas; destaca que a cada meio de comunicação que surge, carrega em sim marco cultural que é peculiar. Além disso, reitera que as mídias são indissociáveis nas formas de produzirem aspectos socioculturais
Um outro ponto a ser abordado é a ascensão da era digital. Segundo a autora caracteriza-se essencialmente através do "poder dos dígitos para tratar toda informação, som, imagem, vídeo, texto, programas informáticos, com a mesma linguagem universal." (p. 70). Enaltece que todas as possibilidades de cruzamentos de dados ultrapassem oceanos, continentes, a conexão entre pessoas transcendendo aspectos territoriais via computador torna-se possível ao que ela denomina de ciberespaço. O ciberespaço é complexo, não envolve qualquer mídia, pois, a sua forma de comunicação é interativa, global e convergente. Além disso, não se restringe meramente a um progresso tecnológico, mas torna-se importante para questões políticas e culturais que nele estão inseridos. Tais aspectos trazidos por Santaella (2003), remete a música "Pela internet", de Gilberto Gil, criada em 1998:


"Criar meu web site 
 Fazer minha home-page 
 Com quantos gigabytes 
Se faz uma jangada 
Um barco que veleje 
 Que veleje nesse informar
Que aproveite a vazante da infomaré

 Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet...
"

Optei por não colocar a música inteira por ser um pouco grande, portanto, apenas atentarei para os trechos destacados. Quando o autor fala em criar web, home-page, destaca a questão da facilidade oferecida pela internet para se conectar a diversas possibilidades navegar em vários links de diversos locais do mundo. O trecho seguinte diz respeito a possibilidade de interação entre os usuários, uma possibilidade de construção coletiva.

Acerca do termo ciberespaço trazido por Santaella, surgiu uma questão:
O termo continua sendo utilizado atualmente nas produções de pesquisas? A pergunta surge no sentido de compreender se o ciberespaço agregou na sua definição o uso das tecnologias móveis, já que seu conceito a priori parece se referir apenas as relações via computador...

Já no capítulo 4, Substratos da cultura, a autora faz uma contextualização das eras culturais anteriores ao surgimento da cibercultura, que são as seguintes:

No entanto, afirma que é partir da cultura das massas que a cibercultura estabelece uma maior proximidade até o seu surgimento. Durante todo o capítulo a autora segue delineando todos os seguimentos que foram se constituindo até chegar o que atualmente é compreendido como cibercultura. Primeiramente, aborda a questão da cultura das massas até cultura das mídias, pondo em questão que foi um processo não linear, ocasionando um misto de uma cultura cada vez mais híbrida e densa, proporcionando o terreno para o surgimento da cultura digital. É fato que os "novos" hábitos inseridos no ambiente interativo, não surgiram de forma repentina, na verdade, eles são oriundos da cultura das mídias. Informa que a digitalização, internet, interface, hipermídia e ciberespaço, não reduzem os usuários apenas ao uso do computador e a utilização dos seus recursos, mas também, propicia a produção e reconstrução cultural. É por estas razões que os estudos da cibercultura estão direcionados para estas questões culturais. Desse modo  cibercultura aponta para dois eixos principais: as comunidades virtuais e a inteligência coletiva.
As comunidades virtuais diz respeito aos novos tipo de comunidades que vem surgindo nas redes, caracterizadas pelas trocas de mensagens e documentos, através da construção de uma linguagem eletrônica híbrida, que se relacionam para além das conexões entre computadores, como celulares, por exemplo. Já a inteligência coletiva, caracteriza-se pelo reconhecimento de habilidades que são distribuídas e coordenadas em prol do coletivo nas redes.
Por fim, Santaella (2003) traz a percepção de alguns autores sobre o fim da era midiática e a era digital se estabelecendo de forma única e definitiva futuramente. Apesar das justificativas dada pelos autores para que tal situação ocorra, parece ser precoce (ao meu ver) afirmar qualquer coisa que possa vir acontecer se olharmos atentamente acerca da liquidez da modernidade descrita por Bauman. Na entrevista concedida por ele afirma que: " Eu acredito que, com algum grau de responsabilidade, posso dizer que duas coisas aconteceram e que são irreversíveis... Uma coisa é que multiplicamos, nós, a humanidade no planeta, as conexões, as relações, a interdependência, as comunicações, espalhadas em todo mundo. Estamos agora numa posição que nós dependemos uns dos outros..."  

Desse modo, a leitura dos textos e afirmação de Bauman permite refletir que o parece existir de mais  concreto neste momento é a capacidade do ser humano em se relacionar, produzir e ressignificar a cultura perante o surgimento constante de novas tecnologias.


3 comentários:

  1. Olá Iris,
    Para entender melhor o conceito de ciberespaço, veja o livro Cibercultura, de Lévy. Deixo uma pergunta: as tecnologias móveis também não são computadores? o que se entende por computador hoje?

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  2. Olá cara Íris! Seria este ciberespaço um mecanismo de liberdade? Até que ponto pode se tratar de liberdade?

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  3. adorei a utilização dos quadrinhos, da musica e da imagem que representa as eras culturais !!!

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